VOLKER SCHÜTTGEN - "O avolumar do habitat"8 de Janeiro a 31 de Março de 2009
Biblioteca Pública e Arquivo Regional "João José da Graça" - Horta
Entra-se numa sala em que as peças estão espalhadas sobre o chão negro. Despojadas como cadáveres num caos aparente. A madeira quente, orgânica, familiar, desenha torsos derrubados na primeira impressão que se fixa na retina, definindo o olhar com que as olharemos mais de perto.
E é inevitável olhá-las mais de perto. As formas rectilíneas dos encaixes sugerem espaços e tesouros escondidos no interior. Gozamos o prazer infantil da transgressão ao espreitar para dentro dum espaço escondido. Descobrimos os seus recantos ocultos onde esconderíamos um poema, uma velha fotografia amarrotada, um brinquedo antigo. O nosso mais secreto e adorado tesouro.
Mas estes espaços estão vazios. Foram já saqueados das suas memórias, dos seus sentidos, como as figuras derrubadas. Teremos de ser nós a preenchê-los com os nossos.
Todas as peças (cujos nomes sempre me escapam) sugerem encaixes impossíveis. Impossíveis mas potenciais. Impossíveis mas necessários. Estranhamente urgentes. Como se tivessem acabado de ser desmontadas e não houvesse a mínima possibilidade de recuperarem a sua estrutura anterior. Abandonadas de toda a lógica, de todo o sentido. Mais uma vez como vidas interrompidas bruscamente. Porquê? Como a vida, as esculturas de Volker Schüttgen trazem uma promessa de ordem, de nexo, de objectivo que fica por cumprir.
E somos postos inexoravelmente perante esse desafio-abismo da nossa condição transitória, contingente, de peças melhor ou pior encaixadas, feitas desta tensão potencial de ordem / desordem. Não nos é dada a possibilidade de sermos neutrais perante as esculturas. Temos de lutar pela ordem, pela segurança, pelo refúgio, pelo habitat interior, onde consigamos conservar a memória, a recordação, a nossa identidade. É doloroso enfrentar o despojamento das esculturas. Doloroso mas vital. Como nascer. Como morrer. Como viver, em suma.
Ainda aturdidos destas reflexões, viramo-nos em busca de alívio ou de socorro para os trabalhos em papel expostos nas paredes. Vistos de longe, sugerem-nos esboços das próprias esculturas, mas sem a pesada tridimensionalidade, sem a brutal realidade da madeira e das perguntas que deixámos sem resposta.
Mas não. Não há correspondência directa entre os traços do carvão no papel rugoso e as figuras desconstruídas que sentimos atrás de nós. Trata-se antes de um alfabeto escultórico, em que o artista deixa que o espaço abandonado à textura entre os traços firmes dê realidade material a volumes desenhados. Cada desenho é perfeitamente individualizado mas todos partilham a mesma linguagem inquietante dos sólidos-que-não-chegaram-a-ser. Ao mesmo tempo, não resistimos a usá-los mentalmente como peças de construção, legos paradoxais, para a criação de novos espaços habitados de memória. Letras sólidas. Talvez para construir respostas às perguntas que as esculturas nos deixaram. Talvez para construir perguntas novas. À escolha.
E é inevitável olhá-las mais de perto. As formas rectilíneas dos encaixes sugerem espaços e tesouros escondidos no interior. Gozamos o prazer infantil da transgressão ao espreitar para dentro dum espaço escondido. Descobrimos os seus recantos ocultos onde esconderíamos um poema, uma velha fotografia amarrotada, um brinquedo antigo. O nosso mais secreto e adorado tesouro.
Mas estes espaços estão vazios. Foram já saqueados das suas memórias, dos seus sentidos, como as figuras derrubadas. Teremos de ser nós a preenchê-los com os nossos.
Todas as peças (cujos nomes sempre me escapam) sugerem encaixes impossíveis. Impossíveis mas potenciais. Impossíveis mas necessários. Estranhamente urgentes. Como se tivessem acabado de ser desmontadas e não houvesse a mínima possibilidade de recuperarem a sua estrutura anterior. Abandonadas de toda a lógica, de todo o sentido. Mais uma vez como vidas interrompidas bruscamente. Porquê? Como a vida, as esculturas de Volker Schüttgen trazem uma promessa de ordem, de nexo, de objectivo que fica por cumprir.
E somos postos inexoravelmente perante esse desafio-abismo da nossa condição transitória, contingente, de peças melhor ou pior encaixadas, feitas desta tensão potencial de ordem / desordem. Não nos é dada a possibilidade de sermos neutrais perante as esculturas. Temos de lutar pela ordem, pela segurança, pelo refúgio, pelo habitat interior, onde consigamos conservar a memória, a recordação, a nossa identidade. É doloroso enfrentar o despojamento das esculturas. Doloroso mas vital. Como nascer. Como morrer. Como viver, em suma.
Ainda aturdidos destas reflexões, viramo-nos em busca de alívio ou de socorro para os trabalhos em papel expostos nas paredes. Vistos de longe, sugerem-nos esboços das próprias esculturas, mas sem a pesada tridimensionalidade, sem a brutal realidade da madeira e das perguntas que deixámos sem resposta.
Mas não. Não há correspondência directa entre os traços do carvão no papel rugoso e as figuras desconstruídas que sentimos atrás de nós. Trata-se antes de um alfabeto escultórico, em que o artista deixa que o espaço abandonado à textura entre os traços firmes dê realidade material a volumes desenhados. Cada desenho é perfeitamente individualizado mas todos partilham a mesma linguagem inquietante dos sólidos-que-não-chegaram-a-ser. Ao mesmo tempo, não resistimos a usá-los mentalmente como peças de construção, legos paradoxais, para a criação de novos espaços habitados de memória. Letras sólidas. Talvez para construir respostas às perguntas que as esculturas nos deixaram. Talvez para construir perguntas novas. À escolha.


