Estava frio. O corpo pedia o calor da cama. Não lhe deu ouvidos e ergueu-se com rapidez. Ficou sentada na beira, olhando o chão, como se tivesse esgotado o ímpeto inicial da decisão.
- Não. - disse em voz alta, sozinha no quarto. - Vou e vou mesmo!
Agora sim, levantou-se e caminhou para a casa de banho do pequeno apartamento, os passos leves para não despertar os pequenos que ainda dormiam no outro quarto.
Lavou-se. Vestiu-se. Comeu. Os gestos banais de todos os dias hoje surgiam-lhe como uma importante solenidade a cumprir, como se encerrassem em si uma tremenda relevância.
Por fim, foi acordar as crianças, estremunhadas e quentes da hora matinal. Resmungonas.
- Mãe, porque é que nos estás a acordar tão cedo? - perguntou o mais pequeno.
- Já te disse, João, que hoje a mãe tem de ir mais cedo para a fábrica. - A resposta rápida a acompanhar os gestos maquinais e eficientes de preparar o pequeno-almoço das crianças. O olhar desviado para a janela da cozinha. Começava agora a clarear.
- Vamos. Comam e não me façam mais perguntas porque já tenho muito em que pensar. - A voz saiu-lhe amarga e arrependeu-se de ter falado assim. As crianças não tinham culpa dos problemas e já tanto tinham que aguentar. O pequeno João, de seis anos, ainda sem perceber porque é que a mãe às vezes andava tão zangada, a tentar desajeitadamente consolá-la. A Luísa, de doze, que começava já a entender muito bem o que eram a vida, as dificuldades, as manhãs amargas e as noites da mãe, choradas silenciosamente na solidão do quarto. Ao contrário de João, Luísa já não perguntava pelo pai, que se fora embora havia algum tempo. Luísa entendia.
Suspirou e passou ternamente a mão pela cabeça do mais pequeno que mastigava, distraído, os cereais.
- Não percebo porque é que temos de acordar mais cedo se hoje vão fazer greve. - soltou inesperadamente Luísa, olhando a mãe com desafio.
- E quem te disse que hoje íamos fazer greve, minha menina?
- Foi a D. Susana, a mãe do Francisquinho, que me disse que hoje ninguém ia trabalhar e que ia poder ficar na cama até mais tarde.
- Ora vês como te enganas? É justamente por estarmos de greve que tenho de ir mais cedo. A greve não é para ficarmos a preguiçar, é para irmos... e estarmos lá... a mostrar o nosso descontentamento.
- E o que é vão ganhar com isso? - Luísa desafiava sabendo que desafiava. Alzira irritou-se. Já tivera esta conversa antes, demasiadas vezes, com os colegas, com "o camarada" do sindicato, com as vizinhas. Não estava com vontade de repetir os argumentos de que ela própria começava a duvidar. Nada era certo. O dinheiro era curto, muito curto, mas estava sempre lá ao fim do mês. É verdade que havia injustiças, que alguns ganhavam mais sem que se percebesse bem porquê. Mas se perdesse aquele emprego... Tremia só de o pensar. Seria o fim. Mas não. Se se deixassem estar quietos é que de certeza nada mudaria. Tinha de ir.
- O melhor mesmo é comeres depressinha o pequeno-almoço, antes que a gente se zangue, e à séria, ouviste? - o seu ar não deixava margem para quaisquer contemplações. Luísa percebeu-o e bebeu o seu leite. Alzira agradeceu interiormente.
Na rua, estugou o passo. Deixara as crianças na escola com o beijo apressado de todos os dias, mas sentiu que notavam o seu nervosismo. Nada a fazer.
À porta da fábrica já estava um pequeno grupo de pessoas, umas dez, não mais. Alzira ficou preocupada. - Será que o resto do pessoal já entrou para pegar ao serviço? - pensou. Mas não. Era ainda muito cedo.
Aproximou-se do círculo e reconheceu a maior parte das mulheres que ali estavam. A Sara, a Rosa, a Lurdes, a Conceição, outras. Estava também o "camarada" do sindicato, que falava às mulheres:
- ... portanto, o importante é falarem com os colegas calmamente e explicarem-lhes que não têm nada a perder, que podemos ganhar isto se ficarmos unidos, e ir distribuindo os comunicados.
- Mas, oh, camarada, se eles quiserem entrar à mesma, a gente não deixa, pois não? - a pergunta saíra-lhe sem pensar, levada pela revolta de se lembrar dos que disseram que não iam aderir. A palavra "camarada" a soar-lhe estranha aos ouvidos, como se demasiado íntima para com aquele homem que conhecera apenas há alguns meses. Encolheu-se, arrependida de ter perguntado.
- Não! Nós não podemos impedir ninguém de ir trabalhar, se quiser. Temos é de os convencer.
- Umas pauladas pelas costas abaixo é que os convenciam! - rosnou a Rosa com o seu eterno cigarro ao canto da boca. Riram em conjunto, no pequeno círculo, afastando por momentos o frio daquela manhã chuvosa e as suas incertezas.
- Bem, vamos a isto! - disse o "camarada", distribuindo os panfletos pelo grupo. Começara a chegar mais pessoal. Mulheres sobretudo. Acercavam-se do piquete de greve. Aceitavam o papel. Sorriam. Conversavam. Fumavam cigarros. E não entravam para trabalhar. Juntava-se mais gente.
Algumas, poucas, surdas às razões, apelos e por fim aos insultos das colegas, entraram, cabeça baixa, olhos no chão. Alzira sentiu uma revolta dolorosa no peito ao vê-las. Mas o importante, lembrou-se, é que eram já um grupo grande, as que tinham ficado à porta da fábrica, as que tinham força, as que não podiam ser ignoradas. Começaram a gritar em conjunto, animando-se, empunharam cartazes. Falaram aos jornalistas, dizendo-lhes o melhor que sabiam as suas razões, a sua justiça.
Alzira olhou à volta e já não viu aquelas mulheres de todos os dias, amargas como o suor mal pago, abatidas de cansaço na manhã que apenas começava, cinzentas como o futuro sempre igual que as esperava. Não. As mulheres à sua volta eram grandes, fortes, belas, decididas, levantadas. Não. Nada seria como dantes. Alzira sorria. As nuvens começavam finalmente a abrir-se para deixar surgir um sol inesperado. - E já não era sem tempo! - pensou.
- Não. - disse em voz alta, sozinha no quarto. - Vou e vou mesmo!
Agora sim, levantou-se e caminhou para a casa de banho do pequeno apartamento, os passos leves para não despertar os pequenos que ainda dormiam no outro quarto.
Lavou-se. Vestiu-se. Comeu. Os gestos banais de todos os dias hoje surgiam-lhe como uma importante solenidade a cumprir, como se encerrassem em si uma tremenda relevância.
Por fim, foi acordar as crianças, estremunhadas e quentes da hora matinal. Resmungonas.
- Mãe, porque é que nos estás a acordar tão cedo? - perguntou o mais pequeno.
- Já te disse, João, que hoje a mãe tem de ir mais cedo para a fábrica. - A resposta rápida a acompanhar os gestos maquinais e eficientes de preparar o pequeno-almoço das crianças. O olhar desviado para a janela da cozinha. Começava agora a clarear.
- Vamos. Comam e não me façam mais perguntas porque já tenho muito em que pensar. - A voz saiu-lhe amarga e arrependeu-se de ter falado assim. As crianças não tinham culpa dos problemas e já tanto tinham que aguentar. O pequeno João, de seis anos, ainda sem perceber porque é que a mãe às vezes andava tão zangada, a tentar desajeitadamente consolá-la. A Luísa, de doze, que começava já a entender muito bem o que eram a vida, as dificuldades, as manhãs amargas e as noites da mãe, choradas silenciosamente na solidão do quarto. Ao contrário de João, Luísa já não perguntava pelo pai, que se fora embora havia algum tempo. Luísa entendia.
Suspirou e passou ternamente a mão pela cabeça do mais pequeno que mastigava, distraído, os cereais.
- Não percebo porque é que temos de acordar mais cedo se hoje vão fazer greve. - soltou inesperadamente Luísa, olhando a mãe com desafio.
- E quem te disse que hoje íamos fazer greve, minha menina?
- Foi a D. Susana, a mãe do Francisquinho, que me disse que hoje ninguém ia trabalhar e que ia poder ficar na cama até mais tarde.
- Ora vês como te enganas? É justamente por estarmos de greve que tenho de ir mais cedo. A greve não é para ficarmos a preguiçar, é para irmos... e estarmos lá... a mostrar o nosso descontentamento.
- E o que é vão ganhar com isso? - Luísa desafiava sabendo que desafiava. Alzira irritou-se. Já tivera esta conversa antes, demasiadas vezes, com os colegas, com "o camarada" do sindicato, com as vizinhas. Não estava com vontade de repetir os argumentos de que ela própria começava a duvidar. Nada era certo. O dinheiro era curto, muito curto, mas estava sempre lá ao fim do mês. É verdade que havia injustiças, que alguns ganhavam mais sem que se percebesse bem porquê. Mas se perdesse aquele emprego... Tremia só de o pensar. Seria o fim. Mas não. Se se deixassem estar quietos é que de certeza nada mudaria. Tinha de ir.
- O melhor mesmo é comeres depressinha o pequeno-almoço, antes que a gente se zangue, e à séria, ouviste? - o seu ar não deixava margem para quaisquer contemplações. Luísa percebeu-o e bebeu o seu leite. Alzira agradeceu interiormente.
Na rua, estugou o passo. Deixara as crianças na escola com o beijo apressado de todos os dias, mas sentiu que notavam o seu nervosismo. Nada a fazer.
À porta da fábrica já estava um pequeno grupo de pessoas, umas dez, não mais. Alzira ficou preocupada. - Será que o resto do pessoal já entrou para pegar ao serviço? - pensou. Mas não. Era ainda muito cedo.
Aproximou-se do círculo e reconheceu a maior parte das mulheres que ali estavam. A Sara, a Rosa, a Lurdes, a Conceição, outras. Estava também o "camarada" do sindicato, que falava às mulheres:
- ... portanto, o importante é falarem com os colegas calmamente e explicarem-lhes que não têm nada a perder, que podemos ganhar isto se ficarmos unidos, e ir distribuindo os comunicados.
- Mas, oh, camarada, se eles quiserem entrar à mesma, a gente não deixa, pois não? - a pergunta saíra-lhe sem pensar, levada pela revolta de se lembrar dos que disseram que não iam aderir. A palavra "camarada" a soar-lhe estranha aos ouvidos, como se demasiado íntima para com aquele homem que conhecera apenas há alguns meses. Encolheu-se, arrependida de ter perguntado.
- Não! Nós não podemos impedir ninguém de ir trabalhar, se quiser. Temos é de os convencer.
- Umas pauladas pelas costas abaixo é que os convenciam! - rosnou a Rosa com o seu eterno cigarro ao canto da boca. Riram em conjunto, no pequeno círculo, afastando por momentos o frio daquela manhã chuvosa e as suas incertezas.
- Bem, vamos a isto! - disse o "camarada", distribuindo os panfletos pelo grupo. Começara a chegar mais pessoal. Mulheres sobretudo. Acercavam-se do piquete de greve. Aceitavam o papel. Sorriam. Conversavam. Fumavam cigarros. E não entravam para trabalhar. Juntava-se mais gente.
Algumas, poucas, surdas às razões, apelos e por fim aos insultos das colegas, entraram, cabeça baixa, olhos no chão. Alzira sentiu uma revolta dolorosa no peito ao vê-las. Mas o importante, lembrou-se, é que eram já um grupo grande, as que tinham ficado à porta da fábrica, as que tinham força, as que não podiam ser ignoradas. Começaram a gritar em conjunto, animando-se, empunharam cartazes. Falaram aos jornalistas, dizendo-lhes o melhor que sabiam as suas razões, a sua justiça.
Alzira olhou à volta e já não viu aquelas mulheres de todos os dias, amargas como o suor mal pago, abatidas de cansaço na manhã que apenas começava, cinzentas como o futuro sempre igual que as esperava. Não. As mulheres à sua volta eram grandes, fortes, belas, decididas, levantadas. Não. Nada seria como dantes. Alzira sorria. As nuvens começavam finalmente a abrir-se para deixar surgir um sol inesperado. - E já não era sem tempo! - pensou.
Às corajosas trabalhadoras da COFACO e à poderosa lição de vida que nos deram.


Sem comentários:
Enviar um comentário